Rush: discografia comentada
Todos os álbuns de estúdio
O frisson em torno da Fifty Something Tour, que trará a banda canadense Rush pela terceira vez ao Brasil, me motivou a escrever esse texto. Agora não podemos mais chamar eles de “trio”, pois os remanescentes Geddy Lee (voz e baixo) e Alex Lifeson (guitarras) contarão com o apoio da baterista alemã Anika Niles (substituindo o quase insubstituível Neil Peart) e Loren Gold nos teclados. A procura pelos ingressos da nova turnê tem sido avassaladora, como eles descrevem nessa ótima matéria do jornal The Guardian.
Da perspectiva de fã que sou, o retorno deles parece realmente incrível. Sim, já comprei meus ingressos para um dos shows ano que vem. E, agora, vou compartilhar aqui meus comentários sobre a discografia do grupo, falando de discos que adoro (ou que considero clássicos) e outros que não foram tão bem sucedidos.
Rush (1974): Esse é o único disco do Rush que não conta com sua formação clássica – o baterista era John Rutsey, que saiu da banda semanas após o lançamento de sua estreia. É um disco de hard rock ao modo de Led Zeppelin e Cream, com uma originalidade ainda insipiente, mas ainda assim um trabalho amado pelos fãs xiitas da banda. O single “Working Man” fez parte do setlist deles ao vivo por décadas.
Fly by Night (1975): Neil Peart trouxe consigo todas as peças que faltavam ao Rush. No âmbito instrumental, sua destreza (já fora de série desde o início) permitiu que Geddy e Alex pudessem se desenvolver mais nos seus respectivos instrumentos. E, no âmbito das composições, ele foi brilhante em uma tarefa que Lee e Lifeson detestavam: escrever letras. O som aqui continuava roqueiro, mas já notamos influências do rock progressivo de Yes e Genesis, seja nas letras de fantasia de “By-Tor and the Snow Dog” e “Rivendell” ou na dinâmica de “In the End”. “Anthem” inaugurava a controversa influência da escritora russo-americana Ayn Rand, e a faixa-título se tornaria icônica na carreira do grupo.
Caress of Steel (1975): Posso parecer um herege aqui, mas esse talvez seja um dos discos mais irregulares do Rush. Ainda assim, temos aqui canções ótimas, abrindo animado com “Bastille Day”, além da excelente “Lakeside Park” (a única que realmente gosto), dividindo lugar com a boba “I Think I’m Going Bald” e duas faixas longas que só fãs de carteirinha realmente gostam: a sombria “The Necromancer” (influenciada por obras de J.R.R. Tolkien) e “The Fountain of Lamneth”.
2112 (1976): Depois do fracasso de vendas do disco anterior, a gravadora pressionou o Rush para adotar um som roqueiro acessível como o do Bad Company, sucesso radiofônico da época. Os três mosqueteiros se recusaram, e disseram que, se fosse para perderem o contrato, fariam isso nos seus próprios termos. Eles dobraram a aposta do seu lado progressivo, e compuseram a faixa-título que ocupava todo o lado A: um épico futurista fascinante, que ajudou a chamar a atenção e fazer desse álbum um êxito de vendas. Já o lado B é cheio de ótimas canções curtas, e os destaques são a sci-fi “The Twilight Zone”, a exótica “A Passage to Bangkok” (uma rara letra de Lee enumerando países que vendem as melhores maconhas) e a doce balada “Tears”.
A Farewell to Kings (1977): O sucesso comercial do disco anterior permitiu que a banda conquistasse o direito de soar como queriam. Aqui, a banda começa a explorar um uso maior de sintetizadores e bass pedals, que Geddy Lee tocava ao vivo (em algumas canções, ele ainda fazia os vocais, tudo ao mesmo tempo). Esse é o disco de “Closer to the Heart”, uma das canções mais conhecidas do grupo, e conta também com as épicas e incríveis “Xanadu” ou a faixa-título como destaques. A longa “Cygnus X-1 Book One” traz a primeira parte de um épico que duraria até o disco posterior.
Hemispheres (1978): Esse trabalho meio que encerra uma trilogia de álbuns de hard progressivo épico (ou a “fase do roupão branco”, figurino constrangedor quase onipresente nos shows e fotos dessa época). É meu preferido dos três. Começa com a épica “Cygnus X1 Book 2”, cujo instrumental é incrível, mas foi fruto de um erro: eles gravaram todo o tema sem ver se o tom era adequado para Geddy Lee. Depois ele foi forçado a gravar um vocal extremamente agudo – e por isso a banda nunca a tocou ao vivo. As outras faixas são a curta “Circunstances”, a clássica “The Trees” (cuja letra em formato de fábula é uma das mais geniais de Peart), e a instrumental “La Villa Strangiato” – que até hoje se tornou uma espécie de “padrão ouro” de sofisticação e virtuosismo no mundo do rock.
Permanent Waves (1980): Aqui é inaugurada uma nova trilogia de álbuns que talvez sejam os melhores já feitos pelo Rush. Os temas épicos ainda estão mais ou menos presentes nas incríveis “Jacob’s Ladder” e “Natural Science”, mas as faixas mais icônicas aqui são as primeiras do disco, “The Spirit of Radio” e “Freewill”. Liricamente, Peart encontra sua bússola, abandonando os temas míticos para falar da contemporaneidade sob um viés cultural, político, literário, histórico e até científico. A partir desse disco, eles deixam para trás qualquer influência mais forte de bandas de rock pesado ou prog, e se tornam um grupo realmente único, usando os teclados sem exageros e apresentando uma coesão e uma química inegáveis.
Moving Pictures (1981): O oitavo álbum do Rush é o seu auge, um disco que parece coletânea, com suas faixas mais emblemáticas – em 2010, a banda tocou o trabalho na íntegra na turnê Time Machine. Ele abre com sua música mais famosa, “Tom Sawyer” (conhecida no Brasil como a abertura da série “Profissão Perigo”), repleta de contratempos e estranhezas harmônicas geniais. “Red Barchetta” é baseado num conto de Richard Foster sobre um jovem e seu carro possante, enquanto “YYZ” aproveita o código morse usado pelo Aeroporto de Toronto para construir um instrumental de tirar o fôlego. “Limelight” é uma declaração de princípios de Neil Peart sobre os problemas da fama, seguida pela longa e maravilhosa “The Camera Eye”. “Witch Hunt” traz tons mais sombrios ao disco, e a cativante “Vital Signs” fecha o álbum com um tema que mistura riffs de sintetizador com ritmos de reggae.
Signals (1982): A sonoridade consagrada do disco anterior continua aqui, ainda que com eficácia ligeiramente menor. É o último álbum com o produtor de longa data Terry Brown – que era tido pelos fãs como uma espécie de quarto integrante da banda. O trabalho abre com “Subdivisions”, que pode ser enquadrada entre as melhores músicas do Rush, unindo um instrumental incrível com uma letra cativante sobre a vida de um adolescente nerd suburbano. As influências do som simples e potente do trio The Police pautam músicas como “The Analog Kid” e “Chemistry”. Uma das faixas mais subestimadas (e secretamente amadas) do trio é “Losing It”, que conta com o violino elétrico emocionante de Ben Mink, além de uma linda letra (inspirada em Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway), onde o jovem Peart imaginava a perspectiva de um artista idoso obrigado a abandonar o ofício que tanto ama (na ocasião de sua aposentadoria, a letra passou a ser ainda mais comovente).
Grace Under Pressure (1984): Aqui inicia-se uma nova trilogia onde os sintetizadores dominam o som, e a banda adquire uma sonoridade mais soft, quase modal as vezes. Trata-se de uma fase que considero injustamente criticada, e que eu gosto muito. Todas as faixas são excelentes, e um destaque possível seria “Red Sector A”, que tece reflexões sobre os campos de concentração no Holocausto.
Power Windows (1985): Penso que esse disco é uma das obras primas subestimadas do Rush. Certamente é o mais maduro e interessante dessa trilogia dos synths, com todas as músicas incríveis, tanto do ponto de vista melódico quanto lírico. A abertura com “The Big Money” foi abertura dos shows da banda por anos, e é difícil apontar um destaque aqui (minha preferida é uma das menos lembradas do disco, “Middletown Dreams”). A última faixa, “Mystic Rhythms” é simplesmente sensacional.
Hold Your Fire (1987): Todos os elementos que os fãs detestam do Rush dos anos 80 estão totalmente saturados aqui. É um disco controverso: eu faço parte dos que o adoram. “Force Ten” é uma excelente abertura, e “Time Stand Still” (que conta com backing vocals de Aimee Mann) talvez tenha sido a melhor tentativa do Rush de fazer uma música de contornos universais, para além de suas fórmulas e clichês (poderia ter sido um hit, mas talvez tenha sido prejudicada pelo clipe horrível). Gosto muito de uma que não é tão lembrada, “Open Secrets”, e “Mission” é uma faixa que funcionou bem nos shows da banda.
Presto (1989): A nova fase do Rush começa sem um direcionamento claro, naquele que talvez tenha sido o pior trabalho do grupo. Apesar do repertório fraco, ele tem algumas das minhas músicas preferidas da banda, as primeiras que ouvi deles: “Show Don’t Tell” e “The Pass”.
Roll the Bones (1991): Aqui, o trio explora um formato mais comercial, que acabou repercutindo em boas vendas, apesar de ser um disco irregular. Tem ótimas faixas, como “Bravado” e a faixa-título, mas minha preferida é mais uma subestimada: “Ghost of a Chance”.
Counterparts (1993): A turnê de 1992 do Rush contou com bandas de abertura como Primus e Pearl Jam, e a convivência com aquele rock pesado alternativo (ou grunge, no caso do PJ) levou o trio a mudar novamente seu som. Com várias letras influenciadas pela psicologia analítica junguiana, esse álbum ganhou força ao longo dos anos, tornando-se um dos preferidos de muita gente. Gosto do disco inteiro, que tem guitarras pesadas e um sabor alternativo que por vezes me lembra um dos seus mais famosos conterrâneos canadenses: o grupo (pouco conhecido no Brasil, infelizmente) Tragically Hip.
Test for Echo (1996): Esse talvez seja o disco do Rush com maior valor afetivo pra mim. Foi o primeiro disco inteiro que ouvi deles, tanto eu quanto boa parte dos meus amigos. A crítica o elenca como um álbum irregular, mas penso ser um dos meus preferidos. Eles seguem na sonoridade alternativa de Counterparts, com guitarras muito presentes e ritmos mais contidos, sem o virtuosismo da fase setentista. Como destaques, eu citaria a faixa-título, “Driven”, “Time and Motion” e “Totem”, mas o disco todo é excelente.
Vapor Trails (2002): A morte da esposa e da única filha de Neil Peart pareciam ter enterrado o Rush de vez, mas eis que os cascudos músicos canadenses voltaram a tocar e ganharam um novo fôlego no século XXI. Foi nessa época que eles fizeram seu antológico show no Rio de Janeiro, cujo DVD Rush in Rio tornou-se símbolo de uma virada na popularidade da banda. Sonoramente, Vapor Trails continua a sonoridade alternativa dos discos anteriores, mas a mixagem e comprimida foi alvo de críticas, obrigando-os a lançar uma versão remixada em 2013. Cada uma das canções remete a uma diferente carta do tarô. Os destaques aqui são a abertura empolgante de “One Little Victory”, “Ghost Rider” e “The Stars Look Down”.
Feedback (2004): Esse EP dá a oportunidade de ouvirmos o Rush tocar músicas de artistas que os influenciaram, como The Who, Yardbirds e Cream. É um trabalho certamente afetivo para o grupo, mas que não gerou interesse considerável dos fãs.
Snakes and Arrows (2007): Saem as cartas de tarô e entra o jogo oriental leela como inspiração lírica. Pesado e melódico ao mesmo tempo, esse é o disco preferido de muita gente, mas confesso que nunca consegui me conectar com ele. Nunca entendi o porquê, afinal, é um disco sonoramente forte, com ótimas canções (como “Far Cry” ou “Workin’ Them Angels”), mas que nunca capturaram meu espírito. Eu me sentiria meio hipócrita em dissertar demais sobre ele, ainda que objetivamente possa dizer que é um excelente álbum.
Clockwork Angels (2012): O décimo nono disco do Rush acabaria sendo seu último trabalho de inéditas. Eu considero ser uma ótima obra, que fecha sua discografia em alto nível. É o único álbum inteiramente conceitual do Rush, baseado em um universo ficcional steampunk (cuja trama seria mais detalhada no livro Os Anjos do Tempo, nome da publicação brasileira para a obra literária de Peart e Kevin J. Anderson). O som une o Rush dos anos 70 com a versão final da banda no séc. XXI, trazendo peso e ótimas melodias dentro de uma abordagem que equilibra sobriedade e virtuosismo. É um disco cheio de destaques, que foi tocado na íntegra em algumas das suas últimas turnês. Eu particularmente adoro as intensas “Seven Cities of Gold” e “Headlong Flight”.










